Wednesday, January 25, 2006

“UMA VIDA DE CAMELO – REFLEXÃO SOBRE O APRISIONAMENTO E A SUBMISSÃO DO ENTE HUMANO”


Por Marco Antonio do Nascimento Sales

“Todo esse espírito de carga toma sobre si: igual ao camelo, que carregado corre para o deserto, assim ele corre para o seu deserto...”.

(NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Assim falou Zaratustra. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 214).

Em determinados momentos da minha existência sou convidado a refletir sobre como certas situações de sofrimento e profundo caos se instalaram na minha vida. E isto, até mesmo, sem que eu pudesse me dar conta das causas originárias ou mesmo da maneira pela qual me coloquei em dada circunstância nem um pouco confortável.

Foi num desses instantes que eu pude notar a grande propensão que eu tinha para me colocar como prisioneiro e escravo do outro, fosse esse outro um estranho ou mesmo um grande amigo.

Comecei a perceber a aridez e sequidão que tal procedimento me trazia, então perguntei a mim mesmo: “Por que eu me coloco como presa fácil diante do mundo? O que me leva a aceitar a imposição de cargas mil sobre os meus ombros? Qual é a necessidade que eu pretendo satisfazer quando julgo importante o ato de me submeter e me curvar, face aos ditames alheios?

As respostas demoraram, os dias transcorriam de forma lenta e dolorosa, até que lendo o “Assim Falou Zaratustra” de Nietzsche percebi, para o meu espanto, que estava levando uma “Vida de Camelo”.

Talvez você me pergunte: “O que significa isso?”. Tentarei esclarecer a metáfora. Para reavivar a sua memória, gostaria que você lembrasse aquela última visita feita ao Zoológico. Certamente você viu aquele grande animal asiático, com pêlo marrom, corcovas e que parece estar ruminando eternamente a sua ração. Acho que você já conseguiu visualizar o “Senhor Camelo”. Que apesar do tamanho é dócil como uma pequena criança.

O camelo desde pequeno é criado pelos beduínos para servir de meio de transporte e sustento para as suas vidas. O pelo e a pele servem para vestir e a carne para alimentar os povos do deserto. Até mesmo nas suas costas, ele carrega um suprimento de água suficiente para salvar a vida do seu amo e senhor.
O camelo é “adestrado” a viver na escassez, a aceitar a falta, a lidar muito bem com o clima miserável do deserto. Além disso ele é um especialista em carga pesada. É comum nas areias causticantes do Saara, presenciarmos aqueles animais compridos de pernas finas, carregando sobre si um amontoado de bugigangas que o seu dono colocou ali para serem levadas. E, lá vai o pobre camelo, sem reclamar, sem rebelião ou qualquer outra alteração, caminhando no ardente deserto, a trilha que para ele alguém traçou.

Foi então que pude ver a semelhança com o “gigante do deserto”, pois desde tenra idade fui educado para obedecer cegamente. Fui adestrado para viver na sequidão emocional, seguindo o “espírito apolíneo”, buscando preservar sempre o “equilíbrio”, a “ordem” e a “racionalidade”. Afinal, o meu “bom comportamento”, levar-me-ia mais tarde (não sei quando...) a receber uma boa recompensa, pois a visão que me era passada, fomentava a percepção do “aqui e agora” como um árido deserto pleno de sofrimento, suor, esforço e lágrimas.

O que eu não sabia até então, era que tudo isso era uma forma de coibir a descoberta da minha “vontade”, dos meus “sentimentos”, das minhas “intenções” e dos meus “desejos”, que estavam sempre diante de mim, porém, fazia-me de surdo para não ouví-los, fazia-me de cego para não vê-los. Em suma: fazia de tudo para eu não olhar para mim mesmo e para a minha situação.

Qual a conseqüência disso? Creio que a maior foi aprender a dissimular, disfarçar e mascarar como bem falou Nietzsche:

“O intelecto, como um meio para a conservação do indivíduo, desdobra suas forças mestras no disfarce; pois este é o meio qual os indivíduos mais fracos, menos robustos, se conservam, aqueles aos quais está vedado travar uma luta pela existência com chifres ou presas aguçadas. No homem essa arte do disfarce chega a seu ápice; aqui o engano, o lisonjear, o mentir e ludibriar, o falar-por-trás-das-costas, o representar, o viver em glória de empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e de si mesmo,...” (NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral. Os Pensadores. São Paulo: Nova Cultural, 1996, p. 53 e 54.).

Essa dissimulação e disfarce revela grandemente como se faz esse “jogo teatral”, cujo objetivo é acima de tudo se esconder. E, era o que eu fazia: escondia-me. Escondia-me na intelectualidade, nas glórias alheias, nos modelos dos outros e na submissão a todos.

No entanto, eu cheguei num ponto onde parecia que tudo iria explodir, minha “vida que era seca” (não querendo plagiar Graciliano Ramos), passou a ser sequíssima, e o meu próprio corpo começou a manifestar este estio: Palpitações, vertigens, cansaços, tremores, dores de cabeça, náuseas, etc.. Por que tudo isso? Era o amargo fruto da prisão na qual me encontrava, pois para lá eu fui, emaranhando-me nas teias da submissão, não lutando com afiadas garras para ser eu mesmo e acabando de vez com a vida de camelo.

Quando comecei a perceber que camelo não era, mas homem de carne e osso, com todas as implicações que tal conceito traz, vi que o deserto não era o meu lugar, que as cargas que levava não eram minhas e, que tudo isso acontecia comigo, por uma simples razão: “havia aprendido a ser camelo”. Agora, precisava des-aprender.

O primeiro passo para isso era ter consciência da minha liberdade. Matar definitivamente o terrível dragão “TU-DEVES”, e assumir a face do leão “EU-QUERO”. Ou seja, deixar a moral escrava onde me formei, onde aprendi a obedecer e, buscar a auto-validação do meu querer, pois, somente eu sou capaz de gerir a minha própria vida, ninguém mais. Só eu sei o que eu penso, só eu sei o que eu sinto, ninguém mais.

Transmudando os meus valores, afirmando o contínuo vir-a-ser da vida e criando-me a mim mesmo, pude então dizer sim para mim. Ratificar com todas as letras: “EU POSSO SER FELIZ”. Posso e tenho o direito de beber água refrescante e cristalina, posso e tenho o direito de sentir a brisa suave e alentadora, posso e tenho o direito de ver e inalar o perfume das flores do jardim, afinal eu não sou um camelo!

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